09 Dezembro 2011

SimCity de intelectuais

O que pensar de um projeto para povoar um território do tamanho de uma cidade com cidadãos contratados para fazerem lá sua vida, com regras de manual elaboradas com o intuito de fornecer incentivos individuais para maior produtividade e competição? Pois essa experiência está prestes a ser implementada em Honduras (célebre pelas praias e os altos índices de pobreza, corrupção e violência ligada ao crime organizado). Lá o parlamento aprovou uma lei para criar em Trujillo uma "região especial de desenvolvimento":
In a nutshell, the Honduran government wants to create what amounts to internal start-ups—quasi-independent city-states that begin with a clean slate and are then overseen by outside experts. They will have their own government, write their own laws, manage their own currency and, eventually, hold their own elections.
É a materialização da ideia do economista Paul Romer para construir cidades-manual (charter cities), um verdadeiro projeto que de engenharia socio-político-institucional:
The principle is simple: take a piece of uninhabited land big enough for a city of several million, govern it by well-tried rules and let those who like the idea move there. The aim is to replicate the success of such places as Hong Kong, not as colonial outposts but as models of development. [...]The idea of setting up a charter city echoes the way that big companies adapt to change. They often set up new divisions unencumbered by old rules. These can be dramatic successes. [...] A clean slate allows government authorities to experiment with laws and governance or copy those that have worked elsewhere, says Mr Romer. A further spin-off, potentially of great interest to rich countries such as America struggling with illegal migration, is that the new entity’s open door gives the huddled masses an alternative: instead of risking their lives on perilous journeys to cross borders illegally, they can move legally to a charter city.
O primeiro passo já foi dado: um grupo de intelectuais comporá o comitê de supervisão de funções administrativas cruciais para bom sucesso do projeto, desde o povoamento do território e a segurança da população até a aplicação das leis e a supervisão da administração condominial pública:
Perhaps the most important feature of the new venture is the “transparency commission”, a kind of board of trustees that appoints the governors, supervises their actions and is meant to make sure that the entities are beyond reproach, not least when it comes to the corruption (often fuelled by the drugs trade) that plagues the region. “It is easier to create a board of trustees than to give control of part of your territory to a foreign nation,” says Octavio Sánchez Barrientos, the presidential chief of staff. A role for foreign government is still an option, but only Mauritius has so far signed on—as part of its push to become a global provider of legal services.
Eu tenho grande ceticismo com iniciativas, independentemente da natureza ou matiz ideológico, que colocam grande poder sobre a vida de pessoas comuns nas mãos de intelectuais com grandes projetos visionários. Da Politeia platônica à Kampuchea Democrática de Pol Pot  e o Khmer Vermelho, elas costumam produzir exemplos de experiências totalitárias, que custam a vida de milhares de pessoas. Com efeito, democracia não está dentre as primeiras palavras do check-list do comitê de iluminados:
And democracy will be introduced gradually. Only when the transparency commission deems that the time is ripe will citizens be able to elect the members of the “normative councils”—in effect, local parliaments. This aspect of the plan is just one of those attracting heated criticism. Some find the explicit (if temporary) rejection of democracy repellent. Others detect a whiff of neocolonialism: gimmicks dreamed up in rich countries being foisted on poor ones. 
Talvez eu tenha lido tragédias gregas demais, mas todo excesso (hybris) é punido impiedosamente pelos deuses:
They believe that the project is especially misplaced in Honduras, a country crippled by weak state machinery and courts that flounder in the face of organised crime. The new entity may suck tax revenues and talent away from the rest of the country, critics fear. Another worry is that the new entities may prove more like Macau than Hong Kong: easy prey for gangsters, money-launderers and other shady characters.
Uma comunidade política não é uma empresa. Beira a insanidade acreditar que algum manual de regras elaborado por especialistas possa incentivar pessoas a agir eficientemente na geração de riqueza, internalizá-las de forma a criar valores que serão transmitidos eficazmente à medida que outros indivíduos forem incorporados. Muitas cidades já foram planejadas por intelectuais movidos por esse temeroso ideal. Elas acabam sempre por se distanciar (para o bem e para o mal) do seu plano diretor original. Simplesmente há contingências demais a serem previstas, detectadas e corrigidas de forma eficiente, eficaz e efetiva. Cave!

1 comentários:

Manoel disse...

Tecnocracia está na moda.... Basta ver a Europa

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