Digo quase que de propósito pois o clamor do povo por liberdade, justiça e prosperidade que deslanchou na Tunísia e se espalhou pelos países árabes, derrubando poderosos ditadores no Egito e na Líbia, desestabilizando governos da Síria ao Iêmen e estimulando reformas em todos, esse clamor popular guarda uma grande semelhança com o processo revolucionário que começou em 1989, na antiga Alemanha Oriental, com a Reviravolta. Naquele ano, de forma inaudita, a União Soviética alcançara o ponto crítico de uma situação revolucionária.
Situações revolucionárias não são revoluções e aqui me apoio no sociólogo anglo-alemão Ralf Dahrendorf (esse autor foi mais importante em minha formação do que Fukuyama ou Huntington), para quem elas seriam situações graves dos negócios humanos que antecedem a suspensão da vida cotidiana. Elas ocorrem quando não apenas grupos sociais, mas todo potencial de mudança existente foi muito tempo reprimido por uma classe dominante. Suas palavras se aplicam quase literalmente ao atual palco da revolução democrática (grifos meus):
Essas situações são um barril de pólvora, mas alguém tem que riscar o fósforo. Em termos mais precisos, um elemento de esperança tem de ser adicionado a uma situação revolucionária para fazê-la explodir. E essa esperança é, em geral, fornecida por algum tipo de sinal de fraqueza por parte da classe dominante - por uma reforma que dê ao povo ânimo para pressionar pro mais, por um indício de insegurança que desmascare a farsa. ("As revoluções têm de fracassar sempre?" In: Após 1989: Moral, revolução e sociedade civil. Paz e Terra, 1997)Se naquela época a centelha de esperança foi acesa pela decisão de Gorbachev em não reprimir o povo que afluía ao Checkpoint Charlie, hoje foi um mártir de apenas 27 anos - o tunisiano Mohammed Bouazizi, vendedor de rua, que se autoimolou, ateando fogo às vestes, em protesto à humilhação infligida por policiais corruptos.
Mas nem só da ruína de regimes autoritários em países pobres se fez este ano. Massas de cidadãos ocidentais afluíram às ruas de Espanha, Grécia, Inglaterra e ocuparam Wall Street para demonstrar sua profunda frustração com os programas de ajuste econômico apresentados pelos governo como solução à crise financeira e com a desigualdade social que se instalou nas últimas décadas de hiperliberalização.
O sentimento de indignação foi o ponto comum a todos esses movimentos. Movidos por aquele ancestral instinto de orgulho e vontade de reconhecimento chamado thymos - o espírito que animava a preservação da politeia platônica, o motor hegeliano da História. Qualquer que venha a ser seu futuro, as revoluções democráticas nos países árabes (e revoluções costumam resultar em um balanço que pende mais para uma renovação conservadora que radical) e as manifestações populares nos países desenvolvidos em crise deixarão sua marca como ponto de virada da política internacional.
Tempos interessantes para viver. Que venha 2012.
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