16 Janeiro 2012
Spy vs. Spy
Um filme de espionagem sem perseguições eletrizantes, explosões fantásticas, geringonças de alta tecnologia, estratagemas mirabolantes nem supervilões insanos que querem dominar o mundo. Nada disso, O espião que sabia demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), adaptação magnífica do romance de John Le Carré, tem uma perspectiva bem mais soturna da vida obscura que esses assassinos profissionais levam. Convenhamos que ganhar a vida com segredos, mentiras e conspirações não é a forma mais adequada para desfrutar de relacionamentos íntimos e duradouros. O clima glacial e cinéreo do ambiente externaliza o mundo interior devastado pela solidão de seus personagens cuja história (apenas insinuada) está repleta de paixões reprimidas, casamentos falidos, amores não correspondidos e casos abortados.
A trama é simples: estamos em 1973, em plena Guerra Fria. Há um agente duplo que vasa informações para os soviéticos infiltrado na cúpula do Circo, codinome carinhoso do serviço secreto britânico (MI6). O agente despachado para a Hungria com a missão de descobrir o nome do traidor é baleado e dado como morto. Caindo em completo descrédito, Control, chefe do Circo, é aposentado compulsoriamente. Após sua morte (ficamos na dúvida se foi natural, suicídio ou queima de arquivo), novos indícios surgem e um agente da velha guarda, George Smiley, é convocado para espionar quatro suspeitos, antigos colegas seus. Lealdade, portanto, é o ponto central da história: lealdade ao país, à organização, à missão, mas acima de tudo, lealdade a si mesmo.
Os inimigos que Smiley tem de combater são leais apenas a si mesmos. Eles se enredam numa teia de informações falsas, manipulações e disputas internas para ascender cargos e obter favores de políticos ambiciosos cujo único fim acaba sendo promover a si próprios ou, no dizer de um deles, "deixar sua marca". Por trás deles, está o arquinimigo Karla, o misterioso e fanático chefe do serviço secreto soviético que jamais aparece, tal qual um espectro em negativo de Smiley.
O sueco Tomas Alfredson (diretor do fantástico Deixe ela entrar) imprime um ritmo de andante maestoso à narrativa, abrindo amplo espaço para atentarmos a detalhes significativos como, por exemplo, o sistema de comunicação de arquivos por pequenos elevadores (que mostram como os níveis hierárquicos correspondiam à altura dos andares), as sessões de natação no rio ao ar livre e a consulta ao oftalmologista (parte da adaptação do ex-agente ao cotidiano de um aposentado), ou o emaranhado de vias férreas que traduzem visualmente a rede de complôs e intrigas a deslindar.
Detalhes como esses recheiam a narrativa, aguçam o olhar e tranquilizam a atenção até que, subitamente, um ato de violência (que nem chega a ser mostrado) enche de sangue a tela. Com Alfredson estamos bem longe da cacofonia e do histerismo que marcam muitos filmes atuais de ação frenética e sem sentido.
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